O Andarilho

O machado novamente atingiu a árvore e ela caiu. Era uma pequena árvore que havia sido plantada anos atrás para um dia ser retirada pelos lenhadores. O sol estava forte anunciando o verão que chegaria em poucos dias, e o suor deixava a pele morena de Icros brilhante. O rapaz estava cansado, mas ainda tinha que deixar a madeira preparada para o uso na sua tribo. Ele ainda iria trabalhar por um bom tempo e sua pele ficaria ainda mais escaldada e morena sob o astro que pega fogo nos céus.
Era uma rotina dura e cansativa a dos trabalhadores braçais, mas era assim que se mantinham os músculos sempre ativos e fortes. Os “bárbaros” viviam sempre perto dos limites da sobrevivência, e manter-se em forma era importante para superar as possíveis adversidades. Era motivo de orgulho para todas as tribos da Abanassínia o seu porte físico, que em sua visão, demonstrava a superioridade de seu modo de vida em relação ao modo de vida daqueles que vivem em cidades.
Era um dia tranqüilo no povoado Que-Hán do povo Que-Kiri. Os jovens estavam em um salão jogando e bebendo em honra à caça que logo seria trazida. Todos se banqueteariam naquela noite. As mulheres preparavam decorações em toda a vila e as crianças pulavam e corriam de um lado para o outro aguardando a hora de comer os doces caseiros que suas mães tinham feito com frutas silvestres coletadas dias atrás. Seria a noite que comemorava a chegada do verão…

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Lá distante nas planícies porém, uma tribo de goblins estava entediada. Era exatamente o oposto da situação dos humanos que viviam alguns quilômetros ao norte. As tendas estavam mal postas, e a fome estava apertada. Toda a caça tinha sido espantada pelos humanos “malditos”. As crianças não tinham nem uma doninha silvestre para poder torturar antes de comer. O tédio estava terrível, e fazia tempos que os goblins não tinham um pouco de “ação”. Os nômades monstros não tinham o que comemorar, e foram levantando acampamento caoticamente para seguir seu rumo errante pelas planícies. Sem esperança de encontrar um lugar melhor para ficar por uns dias coletando provisões, eles preparavam-se para voltar a seus esconderijos sombrios na cadeia montanhosa no centro da Abanassínia. Sua sorte mudaria porém em muito breve.
Os monstros seguiram seu caminho liderados por três hobgoblins. Eram dezenas liderados pelo braço de ferro dessas criaturas. Ninguém sensato se colocaria na frente daquela caravana enquanto cruzavam os campos… Mas sempre há os insensatos, ou aqueles que trazem em si poder suficiente para se colocar de frente com o perigo. Grunk, o hobgoblin mais forte, uns do que liderava todos de volta para as montanhas, avistou ao longe uma pequena cabana iluminada por uma fogueira singela. Ele ficou intrigado e resolveu verificar o que era. Ele não avisou nenhum outro goblin sobre isso pois poderia significar um saque capaz de matar a sua fome. Seu egoísmo era notável, mesmo para goblins, e ele persuadiu todos a ficarem onde estavam por cerca de duas horas, enquanto ele iria “cumprir uma missão”.
Grunk caminhou até a cabana tentando ser sorrateiro. Um cheiro de carne delicioso tomava o ar. Enquanto se aproximava seu coração disparava, apesar de sua sempre inabalável coragem. Havia algo de muito estranho. Então, já ao lado da tenda púrpura, o hobgoblin viu o vulto de um humano. Ele sacou sua espada com bravura mas era tarde demais. A voz do mago ressoou em comando:
– De joelhos monstro!
Grunk apenas pode contemplar o mago de cabeça careca e lustrosa diante de si com um sorriso malicioso. Ele faria tudo que seu mestre mandasse. Era tarde demais para resistir. O encantamento tinha se concluído.

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Icros estava comendo da boa caça aquela noite. Aurora, a jovem de cabelos castanhos, bela como as planícies, estava do outro lado da mesa. O lenhador não podia parar de olhar para ela. Era linda… Icros a amava em segredo. Tinha vergonha de se declarar, mas sem querer se deixava hipnotizar pelos movimentos leves da graciosa moça. Os seus amigos que o observavam riam-se dele de forma acintosa. Era como ver uma criança ter seu primeiro contato estupefato com o mundo. As gargalhadas incomodavam Icros, fazendo-o se recompor de tempos em tempos, mas ele logo voltava a olhar os olhos amendoados e a pele lisa de Aurora.
Desde garoto, Icros admirava a sua colega de brincadeiras. Mas naquele tempo, a inocência era ainda maior em seu coração. Costumeiramente nas viagens de seu povo de vida seminômade ele recolhia flores para a garota em sinal de sua amizade e carinho. Seus pais eram sempre amáveis com a relação, mas eram duros também com o garoto quando se tratava das tradições e dos trabalhos. Icros desde jovem aprendeu a lutar, caçar, e seus músculos cresceram com a idade, dando a ele a condição de fazer trabalhos pesados em prol da comunidade que por vezes enviava alguns dos seus que se fixavam em algum local mais próspero da Abanassínia buscando se abastecer para voltar para o povoado Que-Hán com suprimentos para as épocas mais escassas. Aurora por sua vez, também guerreira se formou, mas sua arte era a da música. Sua voz era bela e suave. As histórias do povo eram sempre contadas por seus versos melodiosos. Eles cresceram, e pouca coisa mudou. Agora, naquele recinto, Aurora cantava, e Icros, ficava observando, duro e lacônico como fora criado para ser. Ele sabia servir, amar seu povo, mas não sabia se expressar. Aurora se expressava por ele, e ele deixava. O tempo passou e Icros se irritou demais com as gozações. Ele resolveu sair para pensar na vida. Carregou consigo seu machado e foi ter com as estrelas para aliviar seu coração. Quando saiu às beiras do seu povoado viu cerca de uma centena de tochas se aproximando. Não havia visitas esperadas. Icros ouviu os gritos. Ele também gritou:
– GOBLINS!!! ATAQUE!!!
No recinto da festa da caça todos ouviram a voz grave ecoar. Os homens prepararam suas armas e foram se posicionar. Ninguém duvidava do aviso. Enquanto corriam para suas casas improvisadas, os humanos sentiram a ira dos monstros. Algumas flechas já caíam com fogo sobre o acampamento. O caos se espalhou entre os guerreiros das planícies, e a batalha que se seguiu foi desordenada e sangrenta. Organizados os bárbaros teriam mais chance, mas pegos de surpresa foram quase que totalmente dizimados antes de a batalha terminar. Os que sobreviveram tiveram que fugir engolindo seu orgulho. Icros sobreviveu bravamente desferindo golpes mortais com seu machado, mas foi gravemente ferido. Em meio a batalha ele buscou por toda a parte Aurora, até encontrá-la quase morta jogada ao chão. Ele a tomou no colo e foi para longe da confusão. Na fuga ele guiou seu povo até o povoado de seus primos, os Que-Talic. Lá eles foram acolhidos durante toda a estação. Aurora pode se recuperar e todos puderam acalmar seus ânimos do ataque dos goblins. Os Que-Talic garantiram que ajudariam seus primos a matar os malditos goblins em breve. Dia após dia, Icros saía com outros guerreiros para rastrear goblins e caçá-los. Pra os Que-Kiri, porém, isso não era o suficiente. Seu modo de vida tinha se perdido, amigos e parentes haviam morrido. Icros mesmo, tinha perdido seus pais… Aurora porém estava viva, e o aclamava como seu salvador. Naquele verão triste o coração deles se aqueceu, e puderam se amar. Eles se apoiaram, e puderam superar juntos às perdas vividas. Aurora deixou de cantar porém, pois uma parte de sua alma tinha perecido com seu povo, e Icros, já não se chamava mais assim. Ao contrário, era chamado pelos Que-Talic e pelos seus de Andarilho, pois fora andando que avistara o ataque, fora andando que salvara os últimos Que-Kiri da batalha do verão, e era andando que ele caçava dia após dia os goblins que destruíram seus amados.

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Após o ataque, os goblins procuraram por toda a parte a pequena lasca de pedra brilhante que o “mestre” tinha ordenado que fosse trazida até ele. A busca permaneceu por um bom tempo, mas nada foi encontrado. Grunk guiou seu bando, e mais três tribos que estavam sob seu comando à mando do “mestre” de volta para o local combinado com o mago. Era o remanescente de toda a força que atacou os humanos. Eles voltaram à presença do mago em uma noite sem estrelas e deram a notícia nada agradável. A fúria do mago foi tamanha. Ele precisava encontrar a pedra. Ele estava buscando a tempos. Grunk implorou se desculpando, mas era tarde para ele. O mago não tinha intenção nenhuma de perdoar. Nem tinha vontade. Ele precisava culpar alguém pelo fracasso. Seus planos tinham sido equivocados. Grunk continuou implorando sob o olhar perverso do homem de vestes negras. O mago encontraria outro líder para um próximo ataque aos bárbaros das planícies. Ele proferiu as palavras e um raio saiu de suas mãos atravessando o peito de Grunk. O monstro estava morto.

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O tempo passou e chegou o outono. Os guerreiros Que-Talic estavam se preparando para rastrear os goblins e matá-los. Os Que-Kiri sobreviventes iriam junto, e isso incluía o Andarilho. Todos os preparativos estavam montados. Alguns goblins já tinham sido caçados no tempo que passou e tinham sido mortos, mas agora finalmente haveria um ataque total e frontal contra a legião de criaturas nefastas que tinham sido finalmente rastreadas indo em direção à Solace. Em alguns dias sairia a excursão. Andarilho e Aurora se despediram por várias noites, e finalmente os aventureiros seguiram o rastro dos goblins.
Andarilho e os outros guerreiros mataram muitos monstros que estavam separados e não mais juntos, e após uma batalha, ele avistou ao longe, na direção do povoado Que-Talic, o fogo que consumia tudo. As chamas no céu eram enormes, e a fumaça parecia um grande dragão encobrindo as estrelas. O desespero tomou conta do coração de Andarilho. A aflição de pensar na perda de Aurora era tanta que ele correu por dias e os outros guerreiros o seguiram de volta para o povoado, apenas para encontrar tudo destruído. Andarilho nem encontrou sinal de Aurora. Icros chorou por horas. Sozinho em meio as cinzas.
Quem nunca perdeu tudo que amava não pode imaginar tamanha dor. Seu rosto estava desfigurado pela tragédia. Seus músculos já não pareciam vivos e sua pele morena estava pálida. O frio cortava sua pele, e sua imagem comovia qualquer alma de qualquer ser vivente. Porém, Andarilho jurou vingança aos goblins, e a quem tinha feito essa atrocidade. Ele juntou suas coisas e partiu então para Solace, onde buscaria novas pistas para continuar sua caçada. Seu rosto novamente tomara a feição impassível da pedra. Ele não desistiria até o fim. Morreria vingando Aurora e seu povo se fosse preciso. Agora, ele não precisava mais fugir ou sobreviver, ele tinha apenas uma missão…

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Naquele momento, o mago, chamado Gader, sentiu a presença da pedra chamada Gemagris. Ele usou sua clarividência e viu as chamas. Ele viu também um homem, e sentiu nele o poder. Aquele poder vinha da lasca da pedra do Caos. Ele convocou então seus mercenários humanos e os enviou pelas planícies, por todas as cidades buscando aquele bárbaro. Ele estava perto…O plano seria utilizar a astúcia e pegar o bárbaro desprevenido. Finalmente Gader tinha tido um sinal claro. Ele tinha atacado os Que-Kiri pois acreditava que Gemagris estava com eles, mas agora sabia que ela estava com os Que-Talic. Ele mandou os goblins se dividirem para verificar se havia qualquer migrante bárbaro sozinho nas planícies. Se encontrassem deveriam prendê-lo. Já os humanos foram para as cidades, buscar ali o homem e a pedra, e as ordens eram semelhantes às dos goblins.

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Andarilho não era o homem a quem Gader procurava, mas logo estaria junto com ele em uma mesma aventura. Seus destinos já estavam cruzados, e juntos, esses destinos se cruzavam com o do mago.

Published in: on Maio 3, 2010 at 5:48 pm  Deixe um Comentário