Um Pequeno Detalhe

A bela e pitoresca cidade de Kendermais estava acabada. A grande dragoa vermelha Malystryx a havia destruído a pouco, e agora sobravam apenas ruínas e cinzas do que outrora foi a maior cidade do povo pequenino em toda Ansalon. Esse povo, entre eles, e para os mais conhecedores, é chamado “Kender”. Não! Eles não são gnomos, nem anões, nem nada assim tão “comum” e “monótono. São Kenders, e basta!
Sua alegria, simpatia, destemor e “inconveniência” são bem conhecidos em qualquer canto do mundo. Afinal, não há um só lugar nessas terras que um kender não tenha visitado. Aos vinte anos de idade, todos desse povo começam a ser assolados pela chamada “febre de viajar”. “É como uma força maior que você se movendo na sua barriga. Mais forte que gases!” – nas palavras de Âmbar, uma pequenina ex-habitante de Kendermais… Sim… ex-habitante… Kendermais, está destruída… E também a ousadia, alegria, destemor e todas as outras características da alma dos que ali viviam. Quem sobreviveu à Malystryx havia se tornado agora um misto daquelas emoções que fazem de gnomos, elfos, anões e humanos serem todos “iguais”. A dragoa apresentou aos pobres Kenders a mágoa, e sobretudo o medo…
Para os pequeninos amedrontados não sobravam muitas alternativas. Era se dispersar no mundo ou seguir Canção da Lua para o oeste em busca de abrigo entre seus parentes mais distantes, os Kenders de Altobaixo. E nenhuma das opções era muito agradável, pois como já foi dito, aqueles não eram mais os mesmos kenders aventureiros e destemidos de antes. Uma viagem só seria enfrentada pois era preciso seguir vivendo, e sob a sombra da Vermelha, não era possível viver mais…
Canção da Lua, uma humana, era filha de Vendaval e irmã de Alvorecer Luminoso. Tanto seu pai como sua irmã haviam perecido na batalha contra Malystryx junto a um exército dos pequeninos. A ela, Canção da Lua, não sobrava mais nada pelo que viver, a não ser fazer o melhor que podia por aqueles que sua família tentara salvar… Seu coração e sua mente estavam em pedaços. Mas corajosamente, ela e muitos diminutos acompanhantes partiram em sua longa marcha rumo ao oeste, atravessando Ansalon de lado a lado por um longo período… Aproximadamente doze primaveras depois da viagem, em Altobaixo, nasceu Locke, sem medo, e muito “inconveniente”.

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Altobaixo era uma bela cidadezinha de pequeninos. Os viajantes que por lá passavam eram sempre bem acolhidos, mas graças à “febre de viajar”, a cidade sempre estava se despedindo mais do que recebendo indivíduos. A única vez em que o inverso ocorrera fora a trinta e cinco anos atrás, quando Canção da Lua e muitos Kenders do oriente haviam chegado na região. Tinha sido um dia estranho! Sempre que o “tio” Astor contava sobre o evento ele frisava a parte sobre os olhares vazios dos kenders que chegavam.
Locke amava histórias, ainda mais as do “tio” Astor; mas tinha um interesse particular pela história dos imigrantes da arruinada Kendermais. Ele sempre estava tagarelando sobre isso aqui e acolá, contando para forasteiros sobre aquele dia “incrível” da chegada dos “orientais” e da luta ainda mais “incrível” entre esses e a poderosa Malystryx. A tragédia parecia pequena para Locke, e ele contava tudo sempre com muita animação, talvez porque não tivesse vivenciado o terror. Sua mente ficava imensamente colorida com a imagem da dragoa vermelha e da antiga capital Kender. Por anos, foram as histórias das aventuras e do mundo o que bastou para pequeno Locke, mas quando ele completou vinte anos, contos não bastaram mais. Ele queria ser como o “tio” Tass, e virar um herói. “Quantas aventuras me esperando no mundo lá fora”…
Esse desejo foi o tomando aos poucos, e com vinte e três anos, após ouvir muitas mais histórias sobre os grandes dragões dominando tudo por ai, e um “Deus Único” e sua sacerdotisa milagrosa, ele decidiu o que todos os Kenders um dia decidiam… Era hora de partir e ver tudo ele mesmo…
Um pequeno barco caravana partiria em breve. Todos que iam a bordo eram de seu povo, e se alto intitulavam Pés Ligeiros, em homenagem ao “tio” Tass. Mas Locke se intitulou Pés-de-Vento, pois ele queria ser diferente. No porto de Altobaixo todos se despediram do barco que partia para o mundo com alegria, acenando lenços das cores mais diversas. Locke Pés-de-Vento pensava em quais seriam seus primeiros passos rumo às aventuras que o aguardavam enquanto acenava. Ele pensou por breves instantes e a imagem que ele fizera desde a infância da dragoa vermelha tomou sua mente. Ele então se determinou a ver logo um dragão, e voltou a se concentrar naqueles que se despediam.
Seus olhos passaram por muitos de seus entes queridos até chegar em sua velha conhecida Âmbar. Ela o olhou com olhos tristes, temendo pelo que poderia acontecer com ele. Em sua barriga ela sentiu uma sensação estranha, diferente da velha “febre de viajar” que ela descrevia “tão bem”. Ela gostava de Locke como um filho, e sentia o medo por ele, que ele provavelmente nunca iria sentir. O mundo vivia dias difíceis e perigosos. Ele então apenas acenou, também sentindo uma engraçada sensação na barriga, e sorriu o mais aberto dos sorrisos enquanto na sua cabeça ele já podia se ver voltando heroicamente de um encontro com um dragão…
Ele ainda não sabia, mas essa viagem o levaria à Travessia, uma cidade portuária na Abanassínia, onde ele encontraria desconfiados companheiros para uma das maiores histórias que já se ouviu falar em Ansalon, e ao final de tudo eles se tornariam os mais fiéis amigos. Começava a grande aventura de Locke para se tornar um dos Heróis das Almas…

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Published in: on Fevereiro 3, 2010 at 5:41 am  Deixe um Comentário