O Caçador Caçado

As noites da Abanassínia eram sempre frescas no outono. As vezes nevava, mas as roupas de pele eram suficientemente fortes para aquecer o corpo de Jharakal. Quando o frio era maior, o seu povo, os Que-Talic, costumavam se reunir para fazer uma bela fogueira e contar histórias do passado ou imaginar o futuro. Houve uma noite, em que o frio se fez mais intenso por causa do vento, e as fogueiras foram apagadas para que todos fossem de volta para suas casas esperar pela manhã seguinte, mais cálida e acolhedora.
Jharakal se despediu de todos como de costume. Seus cabelos longos e negros caíam sobre seus olhos com o bater do vento forte. Ele se abraçou em si mesmo e acelerou o passo para dentro de sua humilde casa de madeira, pedras e lonas de couro. Os móveis haviam sido feitos por Dente de Lobo, um marceneiro vizinho. Os tapetes de peles que ajudavam a aquecer as casas por dentro tinham sido curtidos pelas filhas de Orvalho, um grande amigo. Enfim, cada coisa naquela casa era fruto de alguma relação próxima com alguém. Todos os Que-Talic dependiam de todos os outros para sobreviver. Era uma harmonia estabelecida na troca de favores e na amizade. Na casa, havia apenas um tipo de coisa que não havia sido feita por amigos: armas. Odarn, chamado também Raposa à espreita, falecido pai de Jharakal, era caçador e guerreiro da tribo. Mas sua arte era de ferreiro e armeiro, e seus objetos estavam na casa de muitos outros ali. Freqüentemente Odarn saía para trazer comida para todos, ou para averiguar possíveis ameaças que rondavam o povo das planícies. Suas excursões aventureiras eram comuns, mas haviam ficado no passado, pois ele já havia sido declarado morto após muito tempo sem voltar para casa em uma última viagem anos atrás.
Naquela noite solitária, o seu filho, de pele morena clara lembrou de seu pai com pesar e saudade. Ele observou a espada que um dia o pertenceu, e por um tempo lembrou da voz e daquela face quase apagada de sua memória. Uma estranha nostalgia se abateu sobre ele. Ele tomou a lâmina nas mãos e fez movimentos graves com ela. Ele os lembrava. Ele havia aprendido bem com seu pai a caça e a guerra, e não esqueceria mais.

…………………………………………………………………………………..

Longe dali, na escuridão de um bosque esquecido pelas raças civilizadas, um homem de cabeça lustrosa, vestido com uma túnica negra, olhava para o céu noturno pensativo. As estrelas preenchiam o céu de uma forma nova, apena vista após o fim da Guerra do Caos anos atrás. O mago, ao contrário do povo de Ansalon, sabia o porque da mudança na abóbada celeste. A Deusa maligna Thakisis havia transportado o mundo pelo cosmos, ocultando-o dos Deuses que tinham levado a entidade Caos para longe do plano onde estava Krynn até então. Enquanto os Deuses salvavam o mundo da destruição certa, a Rainha Negra planejava seu trinfo final sobre os mortais. Ela precisaria aguardar no entanto, pois sua vingança seria fria e cruel, e ela precisava recuperar todo seu poder antes do triunfo final.
O mago continuou refletindo sobre tudo aquilo e sobre seu plano de ajudar a Deusa. Até agora tudo estava como esperado! As almas, que seguiam para outro plano depois da morte, estavam presas sem ter saída do plano material graças ao novo posto de Krynn no cosmos. Elas são feitas da própria essência da magia, imortais, e eram perfeita fonte de poder para Thakisis recuperar suas forças mais rapidamente antes de sua vitória. A Rainha das Mentiras fez das almas suas escravas prometendo paz eterna após sua vitória. Isso dava a Ela a oportunidade de sugar sua força para se nutrir, isso, porém, não era trivial. Sugar a energia das almas para recuperar o esforço feito por Thakisis no “roubo do mundo” era trabalho árduo, e era preciso de grande poder para canalizar o principio eternamente vivo das almas para um único foco. A Deidade exigia com pressa de seu servo tal favor, e dera inclusive um poderoso artefato para o conjurador Gader conseguir realizar melhor seu trabalho. Era um pequeno bastão, chamado de Organizador.
Para o secular mago, malicioso e sábio, o presente era auto-explicativo. Era uma amostra da Deusa de que ela confiava nele, teria paciência, mas era ao mesmo tempo uma forma de deixá-lo incapaz de não realizar o trabalho rapidamente. Aproximava-se o período da Revelação de Thakisis ao mundo, pois até então, ela estava se ocultando.
Enquanto o mago canalizava a energia das almas, Mina, sacerdotisa da Rainha do Abismo, varria o mundo em uma cruzada sagrada apresentando seus poderes concedidos por sua Deusa sem dizer no entanto quem essa era. Ela apresentava sua força em nome do “Deus Único”, e com suas maravilhas realizadas perante os outros mortais pretendia arrebatar muitos fiéis desamparados para sua matrona. Esse era o plano ardiloso e vingativo da deidade, e quando ela tivesse Ansalon aos seus pés, ou perto disso, ela então precisaria estar plena em sua força, para se mostrar finalmente em esplendor. Até os elfos “nojentos” de Silvanesti cairiam sob seu jugo. Faltava pouco… Muito pouco… Mina estava cumprindo bem seu papel. Tudo ficaria bem para Gader, é claro, se ele cumprisse o seu também. Ele teria então seu lugar como um dos donos do mundo.
O Organizador o estava servindo bem, mas a demora na canalização da força das almas era grande. Era uma força muito difusa. O mago precisava de uma fonte de poder maior e mais imediata ou a demora lhe custaria a vida, e seus planos de ascender em poder e glória ao lado de sua Rainha iriam para o Abismo com ele… O tempo estava se esgotando. Ele tinha porém uma esperaça em um último trunfo.
Gader sabia do povo ancião chamado de Irda, que eram os primeiros ogros, filhos primogênitos de Thakisis em Ansalon. Com seus corpos longos e esguios e suas peles de diversas cores, sua beleza era comparável a seus poderes mágicos, que foram capazes de libertar no mundo o poder do Caos, ainda que sem intenção, havia anos atrás. Caos esteve contido em uma pedra forjada pelo próprio Deus ferreiro Reorx, mas em uma ocasião de tentativa de destruição da pedra pelos altos ogros o poder de Caos veio para Ansalon.
A pedra foi destruída apenas com o fim do Verão do Caos, mas uma das lascas, ainda cheia de poder, tinha ficado nas mãos de Gader na ocasião. Ele se lembrava sempre dela. Ele tinha a usado para muitos fins, inclusive manter seu corpo jovem. Porém, a incrível maravilha tinha sido roubada do mago negro anos atrás por um homem tribal, guerreiro implacável que se vestia com peles de couro e sede por tesouros.
A lasca da pedra tinha sido levada, e Gader não podia mais saber onde estava. Ele suspeitava que tinha ficado na Abanassínia, entre os bárbaros, pois a aparência do homem que o roubara era típica dos povos das planícies. Ele estava a procurá-la fazia anos, enquanto dava continuidade à escravização das almas. Era sua única chance de ter contato com tanto poder em um só lugar. Quando tivesse ela, ele poderia sugar sua energia pelo Organizador diretamente para onde ele desejasse, e seria para a Deusa das Trevas. O artefato já estava pronto, e bastaria um contato com a fonte dos resquícios da força de Caos… Ele usara sua forte mágica para unir diversas tribos de goblins sob seu comando, criando um exército, que ele logo mandou pela Abanassínia. As estradas foram sendo tomadas aos poucos, mas ele não tinha encontrado nada. Era arriscado demais deixar que as populações de humanos percebessem organização entre os goblins em uma ataque frontal na busca da pedra. Seria maléfico para os planos de Thakisis. Seria suspeito. Para tudo continuar bem as intenções e planos precisavam permanecer na escuridão. Acontece que Mina realmente estava cumprindo bem seu papel. O mago precisava se apressar. Ele estava perdendo a paciência quando recebeu a notícia de que os exércitos de seguidores de Mina se aproximavam da Abanassínia. A urgência fez do mago um homem com aparência ainda mais cadavérica e cruel. Ele reuniu ainda mais tribos de goblins sob seu comando mágico. Os monstros estavam em posição.
Gader só precisava de um sinal para começar a procurar sua relíquia no lugar certo e quem sabe aliviar a tensão de seus ombros que pesavam ao carregar a sombra da impiedosa Thakisis.

…………………………………………………………………………………..

Jharakal levou a espada até seu aposento, deixando-a com suas coisas. Ele estava começando a superar definitivamente a dor da perda de seu pai. No dia seguinte ele se anunciaria como novo caçador e guerreiro. Já estava pronto e muito bem treinado. Ele então, tirou de dentro de um baú um antigo presente trazido por Odarn. Jharakal o recebera ainda bebe, e seu pai o havia dito para nunca deixá-lo. Jharakal não sabia, mas seu pai tinha pegado a pedra em uma aventura muito tempo atrás pois ouvira de um mago que o poder dela poderia salvar seu filho da morte. Jharakal nasceu jurado para morrer por uma maldição, e Odarn não poupou esforços para encontrar o artefato e dá-lo ao menino. A pequena pedrinha brilhava de forma opaca e sem vida, mas era fascinante. Mas naquele dia, ela começou a brilhar mais forte.
O vento do lado de fora começou a ganhar mais força. Os Que-Talic que ainda estavam ao relento correram para suas casas. A pedra na mão de Jharakal começou a queimá-lo, mas ele não conseguia soltar. Sua cor ficou vermelha. Um calor intenso tomou o local. Imediatamente, um turbilhão de fogo começou a se formar.
O jovem guerreiro estava paralisado. Seu corpo não respondia aos seus comandos. Ele sentia sua força sendo sugada e sendo aumentada ao mesmo tempo. Era como se seus pés fizessem um canal direto com a terra e trocassem força com ela, mas a força da terra era demais para que ele agüentasse. Um furacão de fogo então começou a varrer a tribo. Jharakal ouviu os gritos de morte e sentiu o cheiro dos corpos e da madeira queimando. Tudo era muito rápido. Seus cabelos voavam para cima enquanto a pedra saiu sozinha de sua mão. Ela foi em direção à cabeça do homem. Seu grito era mais abafado e terminal, como o dos que morriam em toda a tribo. Houve um pequeno tremor. Jharakal fechou os olhos em agonia e sentiu a testa queimar terrivelmente. Seu corpo continuava inerte incapaz de controlar o poder ali presente. Os gritos não paravam, e o seu próprio ecoava assombrosamente em sua cabeça. Ele sabia que todos iam morrer. Já estava acontecendo. Ele tentou se mexer novamente em vão. Quando seu grito cessou, tudo estava em cinzas.
Jharakal caiu por terra desmaiado, pálido, com os cabelos não mais negros, mas brancos, e em sua testa, a pequena pedra estava cravada. Todos estavam mortos na tribo. Mas ele iria acordar, para enfrentar mais uma vez a perda. O poder do Caos presente tinha se manifestado…

…………………………………………………………………………………..

Naquela noite, Gader sentiu o poder liberado nas planícies. Ele convocou seus servos humanos e goblins e os enviou para a busca. Todos deveriam buscar a pedra. Alguns deveriam ficar à espreita em Solace e nas outras cidades importantes da região, outros iriam diretamente lidar com as tribos das planícies. Gader sentiu a vitória. Ele finalmente teve o sinal que precisava. Um maléfico sorriso de canto foi esboçado pelo mago.

…………………………………………………………………………………..

Depois que acordou, Jharakal caminhou pela tribo destruída. Seus passos foram lentos e pesados. Sua dor era tão grande que não se pode descrever, ao ver os corpos queimados jogados entre os escombros do que outrora foi sua casa. Ele sentiu a culpa, a dúvida, o medo… Seu corpo caiu por terra, e sobre seus joelhos ele chorou e urrou com angústia poucas vezes vista nas planícies verdes. Aquela pequena vila logo seria visitada pelos outros bárbaros das planícies. A vergonha de Jharakal era imensa, ele não podia resistir. Para seu povo, não haveria castigo pior do que aquele de ter causado sua própria ruína. Ele continuou gritando e chorando por um bom tempo em uma cena cinzenta, até que sua voz se abafou então. Por alguns dias ele não comeu, não dormiu. O guerreiro se tornou um misto turbulento de sentimentos ruins vagando pelas vastas planícies. Fugindo dele mesmo…
Quando ele finalmente partiu, ele não pode olhar para trás. Precisava tentar viver e buscar as respostas para tudo aquilo, para que pedra era aquela, porque seu pai a tinha dado a ele. Jharakal precisava dominar aquilo, se livrar dessa terrível maldição. Seu caminho de exílio o levou para Solace, a cidadela mais próxima. Era onde ele esperava náo encontrar mais nenhum bárbaro. Ele talvez nunca mais retornasse ao seu povo… Vergonha e dor o consumiam…
No caminho ele sentiu cada vez mais seu corpo se acostumar com as náuseas. Ele sentiu o poder do Caos fluir em suas veias, e continuou, seguindo com essa comunhão indesejada e com as imagens constantes dos mortos que outrora foram seus amados… seu povo…
Ele chegou em Solace no mesmo dia que Armantaro, Nienna, Khan e Andarilho. Ele não sabia, mas lá ele encontraria os servos de Gader à sua espera com suas roupas negras e suas faces odiosas. Assim começou a cadeia de eventos que acabaria de vez com a Guerra das Almas.

Anúncios
Published in: on Fevereiro 5, 2010 at 5:49 pm  Comments (7)