A Dançarina

Poucos eram os dias que Galvânia não se juntava às outras mulheres da caravana cigana para enganar e se aproveitar de comerciantes embriagados das Planícies de Abanassínia. Desde cedo a belíssima garota já aprendera a cativar o mais valente dos homens com seu charme e sua dança. Ela era a única jovem da caravana que, quando dançava, conseguia silenciar as bocas e estancar os maus hálitos nas noites de festa. De longe era a que conseguia abordar mais dinheiro com suas apresentações, e seu precoce corpo cativava estranhos que, cegamente, se deixavam enganar pela sua beleza. Isso lhe trazia freqüentemente muitos problemas. Quando a violência masculina imperava naqueles seduzidos, nada restava a não ser fugir habilmente das mãos ensebadas. O corpo de Galvânia fluía elegantemente das investidas cegas de desejo dos homens, para desabar em lágrimas solitárias pelo acampamento, amaldiçoando a vida dura que levava com o grupo. Não eram raros os dias de fome e frio que muitas vezes eram obrigados a passar. O dinheiro conseguido, seja pelo roubo ou pela dança, não era suficiente para alimentar a todos.
Durante sua infância, Galvânia foi cuidada pelas experiências que sua vida oferecia. Esguia dos trabalhos que era incumbida a fazer, a garota brincava e dançava sozinha pelos arredores do acampamento. Muitas vezes espiava os afazeres alheios, assim como a vida íntima adulta. Mulheres eram constantemente violadas pelos homens do grupo, na sua grande maioria bêbados e músicos, que inutilmente buscavam trabalhos marginais e viviam do jogo. Não conseguia brincar com outras crianças, pois sua falta de paciência e violência a impediam de compartilhar brincadeiras. Ao invés disso, Galvânia ensaiava passos de dança e caçava pequenos mamíferos para seu próprio deleite. Conforme foi crescendo, seus traços se embelezaram, mas o espírito difícil e indomável da jovem permanecia o mesmo. Batia naqueles que ousavam tocá-la e permanecia distante do cotidiano do grupo. Possuía longos cabelos encaracolados, maltratados pela falta de banhos e cuidados, e olhos escuros tão profundos quando as mais negras e isoladas estradas de Ergoth.
“Filha das Estradas”, já dizia Gadjo, um dos ciganos da caravana que possuía contato mais próximo com a garota.
Gadjo via em Galvânia muito mais que uma mera dançarina. Volta e meia desaparecia com a garota pelas florestas para ensiná-la a arte das espadas. Galvânia manuseava o sabre com notáveis leveza e força, como se dançasse. Insistia em rodopiar ao invés de seguir as ordens de Gadjo, que a treinava como se fosse um dos garotos da caravana. Muitos dias ele se enfurecia e batia na jovem, que retrucava ofensas enquanto se desvencilhava dos golpes do homem e tinha que inventar mentiras para outras mulheres do grupo. Mas, mesmo assim, Galvânia insistia para treinar e o tinha como um “pai” que a protegia dos males do mundo. Ao longo dos anos, a garota dançava como o fogo, quando devidamente atiçado, soltando seu corpo pelo ar em incansáveis torneios e rodopios. Ninguém se igualava a sua dança e seu corpo passou a ser cada vez mais desejado pelos homens a sua volta. Poucos piscavam quando ela seu punha a rodopiar livre em torno da fogueira, como se buscasse dentro de seu próprio coração a liberdade da vida sofrida que vivia. Aqueles que na embriaguez tentavam agarrá-la, encontravam-se, sem entender, de mão vazias observando aquele corpo juvenil se distanciar correndo. Sempre assim, lutando, dançando, graciosa chama incontrolável…
Certo dia, Galvânia estava escondida na tenda das mulheres, observando as novas jóias que conseguira roubar de um viajante desprevenido nas estradas ao norte do acampamento. Era a primeira vez que ela via jóias diferentes daqueles brincos e pulseiras enferrujadas que eram usados pelas mulheres com quem convivia. Ela pensou em como poderia se embelezar com elas e esse pensamento a assustou. Seu corpo não era mero objeto ou uma simples ferramenta para conseguir dinheiro. Era seu, somente seu, e a ninguém mais pertencia. Sentiu um aperto doloroso em seu coração. Nunca pudera antes pensar em si e esse novo pensamento a isolava de toda sua vida no grupo cigano. Pela primeira vez seu corpo foi inteiramente seu e ela não sabia ao menos reconhecê-lo. Empurrou as jóias longe de si e as escondeu novamente na sua trouxa de roupas. Sentou-se em lágrimas. A cantoria no acampamento a enojou. Queria de alguma forma pertencer a si mesma e não a um grupo que se preocupava em pequenos ganhos à custa da sua própria identidade. Sentiu amargamente um desejo por liberdade, do mundo, do grupo e de si mesma.
Gadjo entrou ruidosamente na tenda, assustando a garota ainda fragilizada pelas lágrimas que haviam escorrido daqueles profundos olhos. Ninguém sabia quanta angústia havia em seu coração, quantos sentimentos estavam escondidos naqueles olhos!
“Vem dançar, Galvânia!” – disse Gadjo, exalando álcool e tropeçando nas roupas espalhadas pela tenda.
“Me deixe. Não quero dançar hoje.”
“Não seja insolente, garota!”
O homem levantou o punho, encenando que bateria em Galvânia, mas se atrapalhou com o próprio movimento e caiu em cima dela. O cheiro enojaria o mais desprezível dos monstros. Ela tentou se esgueirar, mas ele havia deitado sobre seus braços e a abraçava como se tentando imobilizá-la.
“Gadjo, não. Saia daqui.” – ela tentou, com mais lágrimas que lhe enfraqueciam. Toda a repugnância pela vida presa lhe engasgava. Ela não podia mais agüentar, não podia.
Gajdo não parecia ouvir. Seu instinto por aquele corpo pueril que tanto havia visto rodopiar cheio de vida o cegava. Queria aquela vida para ele, ela a pertencia! Depois de tudo que ele a ensinara, como podia ela negar o amor que ele tinha. Aquele corpo era seu por direito! Ela havia de dançar em torno dele, rodopiar com ele pela tenda e pelo mundo afora. Suas mãos sujas encontrariam aquela pele que cheirava a juventude e garantia prazeres desconhecidos até pelos mais aventurados guerreiros! Todos o invejariam com aquela magnífica mulher a seu lado e ele seria respeitado pelos ciganos como o homem que conquistou o coração selvagem da “Filha das Estradas”!
Galvânia não conseguia se desvencilhar. Por mais forte que havia se tornado com os anos de fugas de homens violentos e severos treinos com espada, a bomba de emoções que trovejavam caoticamente em sua cabeça a impedia de qualquer movimento mais brusco. Não conseguiria mais viver essa vida, esse constante abuso de sua própria identidade. Não havia golpe que conseguisse libertá-la da opressora tradição que tivera que conviver desde o início da sua vida. Ela precisava de mais força, mais liberdade do que a vida lhe oferecia. Sua mão estava quente quando tocou a fria bainha da adaga perto de sua cama. Não percebeu o sangue igualmente quente que jazia entre seus dedos. A fogueira ardia no centro do grupo cigano. Havia silêncio, apesar da intensa cantoria e gargalhadas que alimentava o fogo fora da tenda. Dentro desta, porém, o fogo era alimentado pela raiva e pelo instinto de liberdade. O último olhar de Gadjo foi aquele corpo jovem, correndo distante pela escuridão da vida que o rodeava. “Ela é minha! Tem que ser minha!” – foram seus últimos pensamentos. O acampamento seguiu rumo dia seguinte, em silêncio. Galvânia já estava muito longe para ser descoberta.

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O dia estava ensolarado quando Laura Majere encontrou uma linda jovem nos fundos da Hospedaria do Último Lar, em Solace. Com grandes cabelos pretos e encaracolados, roupas coloridas, rasgadas e sujas, e olhos castanhos inchados e vermelhos. A moça se encontrava em um estado deplorável.
“Quem é você que me aparece às escondidas na minha hospedagem?” – perguntou Laura, um tanto desconfiada por conhecer diversas estórias de pilantragem e roubo por parte dos ciganos. Laura sabia que havia um grupo não muito longe de Solace que estava abordando viajantes e causando intrigas pela cidade.
“Busco trabalho. Tenho mãos honestas que podem manusear bem uma bandeja.” – disse a moça, com voz firme e carregada de uma tristeza que parecia exalar pelos seus poros. Parecia que fogo algum poderia acalentar aquela alma tamanhamente perturbada.
Na realidade a dançarina apenas buscava comida, e quem sabe uma nova vida. Ela poderia se manter roubando, dançando para homens, mas isso seria negar a busca pelo novo. Por isso ela se arriscou. Ofereceu-se para trabalhar. A dança ficaria guardada em seu coração para seu próprio deleite, não de nenhum grupo ou nenhum homem…
Laura continuou:
“E como posso garantir essa honestidade com alguém que busca os fundos despercebidos de uma estalagem para oferecer seus serviços?”
“Com a garantia de quem já ouviu a enganação calar a mais bela das músicas, quando se estava dançando livremente pelos campos.” – disse a moça com a verdade se acumulando em lágrimas em seus olhos.
“E com a mesma sinceridade“, continuou, “de alguém que evita ser empregada com tão porcas roupas na frente de todos os clientes.”
Laura concordou com o raciocínio da moça e não havia como negar tamanha astúcia e verdade naquelas palavras. Além disso, havia há pouco perdido a garçonete da estalagem para um viajante apaixonado que levou-a fugida.
“Pois bem, vá se lavar! Vou buscar trapos mais limpos para você servir os clientes. Não demore! Já consigo ouvir as baforadas raivosas dos anões que vem do sul em busca de cerveja”.

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Já se passavam 3 meses que Galvânia servia na Hospedaria do Último Lar. Conseguia o suficiente para sobreviver e mais alguns trocados quando havia bardos na estalagem e Laura a permitia dançar. Sua dança atraía muitos clientes e deixava boquiabertos guerreiros e magos que buscavam a estalagem para vê-la. Laura era muito gentil com Galvânia e permitia que ela treinasse com sua espada nos estábulos vizinhos. Cada vez mais, Galvânia se desprendia do pensamento sobre o passado, deixando sua paixão pela dança e por sua liberdade preencher sua vida. Mas da mesma forma se inquietava com a monotonia da estalagem. “Filha da estrada”, como bem era chamada, já configurava o espírito viajante de Galvânia e os primeiros instintos de mudança já começam a lhe povoar a mente. Não queria criar laços afetivos com ninguém que fosse. Aprendera bem sua lição de que o afeto pode muitas vezes cegar e a deixar vulnerável à enganação, algo que nunca mais poderia permitir. No entanto, não havia planos e aguardava o certo momento que a oportunidade a levaria, como um vento leva uma folha rodopiando ao vento.
Certo dia, um homem encapuzado sentou-se numa mesa próximo ao balcão. Galvânia não conseguia distinguir seus traços e isso a incomodava. Não se sentia confortável com aquela presença, pois sentia que o homem a fitava profundamente.
“O que está esperando, garota? Vá servir o cliente!” – disse Laura, já há muito familiarizada com tipos como esse.
Ao se aproximar do homem, este se levantou prontamente e agarrou seu braço, retirando o capuz:
“É você a que vi em meus sonhos, rodopiando como uma labareda. Aconteça o que acontecer, proteja o homem da insígnia!” – suas últimas palavras foram sussurradas, ou nem ao menos ditas, mas como que cantadas diretamente na mente de Galvânia, que permaneceu parada vendo o homem desaparecer pela porta.
“Malditos esses que vem se aproveitar da beleza alheia! O que ele lhe disse, Galvânia?” – perguntou Laura, quando viu a moça se aproximar novamente do balcão.
“Nada que valha a pena ser repetido.” – disse Galvânia, áspera como muitas vezes se portava quando Laura tentava conhecer melhor sua empregada.
Poucas horas depois, enquanto sonhava acordada com aquele recado misterioso depois de servir um elfo e uma moça sentados próximos, Galvânia viu estranhos homens de túnica negra que estavam no aposento:
“Prendam aquele homem!”
E percebeu um homem com uma faixa enrolada em sua testa, como se evitando mostrar algo. De alguma forma, o coração de Galvânia sabia que embaixo daquela faixa havia uma insígnia. Presa na testa daquele rapaz jovem de cabelos brancos.
Sua mão sentiu o cabo frio de seu sabre que repousava logo abaixo do balcão, aquele homem havia de ser protegido.

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Published in: on Maio 1, 2010 at 4:30 pm  Deixe um Comentário