O “Lago da Morte”

Armantaro

A batalha seguiu por horas. Os elfos, anões de Thorbardin e os simpatizantes da causa élfica entre os cavaleiros de Neraka que ficaram para lutar, faziam de tudo para destruir a grande dragoa verde Beryllinthranox e seus lacaios goblinóides que infestavam a cidade de Qualinost. A luta porém, era intensa e feroz, e muitos pereceram diante da “morte verde”.
Laurana, a General Dourada dos elfos, permaneceu até o fim lutando, e assim como sua imensamente poderosa inimiga Berillynthranox, caiu. Junto com ela e a dragoa, Qualinost também tinha partido. Os espasmos de morte da gigantesca Berilo trouxeram a capital dos elfos do oeste a baixo, deixando-a se inundar com as águas do rio Fúria Branca, que a banhava.
E foi assim que em horas, séculos de histórias e maravilhas haviam sido destruídos. Muitos elfos haviam fugido antes da batalha. A ordem do Rei Gilthas para a diáspora tinha sido dada antes do ataque iminente da sumo-senhora draconica. Os exilados teriam agora que enfrentar o mundo. Quase todos se aventuraram pelas Planícies de Poeira à leste, buscando refúgio com seus primos, os Silvanesti. Mas não importava para onde fossem, todos enfrentariam angústias.
A guerra das almas estava em curso, embora essa notícia tenha ficado distante da região de Qualinesti por um bom tempo. Agora que as preocupações com a Verde tinham ido embora, todos iriam perceber que estavam no meio de um furacão ainda maior. Para os elfos que migraram para o leste, a tristeza seria grande pois seriam hostilizados pelos habitantes naturais do local. Já para um elfo em particular, que migrou amargamente para o norte no exílio, as dores viriam em sua entrada acidental na aventura que levaria ao “olho desse furacão”. Seu papel seria decisivo para o fim definitivo da Guerra das Almas e para a volta dos Deuses ao mundo…
Seu nome ficou conhecido anos mais tarde…

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Segundo dia da Dança Onírica, Crepúsculo do Outono de 421 (AC)

Agora somente água e ruínas. É o que resta da minha amada e gloriosa Qualinost. Como eu queria participar dos exércitos que derrubaram a Verde, a maldita Beryllinthranox, que transformou minha cidade num lago frio, cheio de dor e sofrimento de meus irmãos e irmãs que morreram para salvar tantos outros. No fundo desse lago que um dia foi a nossa magnífica capital, descansam nossos heróis, nossos filhos e nosso… passado… Nalis Aren, Lago da Morte… Antigo lar…
Mas eu acredito que os Deuses não nos deixarão desamparados, minha fé existe, ou melhor, persiste apesar de todos os fatos recentes. O Caos governou nosso mundo há um bom tempo, e agora há rumores de um Deus Único que está se levantando em algum lugar, mas eu não deixo de acreditar que logo os Deuses retornarão de seu isolamento para nos agraciar com seu poder, e conceder novamente aos habitantes desse local suas bênçãos, e também nos livrar da tirania dos Sumos Senhores Dracônicos. Ah, como dói a raiva que sinto da Verde que massacrou nossa bela capital.
Após a tragédia, eu resolvi abandonar a vida da comunidade élfica que insistia em permanecer perto da floresta, decidi que iria de alguma maneira contribuir para o retorno, o mais rápido possível, dos Deuses e do equilíbrio a Ansalon. Andei sem rumo por algum tempo, abandonando a caravana élfica que rumava para as Planícies de Poeira com o Rei Gilthas. Comi algumas coisas que trouxe na algibeira, algumas frutas, e em algum momento lembrei de Solace, um vilarejo humano próximo, bem ao norte da floresta de Mithranhana onde repousa Nalis Aren. Me dirigi para lá…
Chegando eu vi uma cidadela construída em árvores grandiosas, o que me despertou a nostalgia e a dor da Qualinost destruída. Obviamente que as casas e a arquitetura daqui não são tão graciosas e detalhadas como as nossas. Mas guardam uma beleza; aquela da lembrança amarga que mutila o coração, mas o acalma ao mesmo tempo… Eu vi então uma placa (Hospedaria do último Lar), parecia ser algum tipo de taverna. Será que eles têm hidromel e algum lugar para descansar? Ao entrar, vi um lugar escuro e cheio de pessoas bêbadas….e… Ah, anões, com suas vozes altas no ambiente.
Sentei-me rapidamente numa mesa escondida, no canto. A garçonete veio e entregou três canecões de cerveja na mesa dos anões e veio em minha direção, ignorando os elogios grosseiros dos homens que a viam. Ela é ágil, esguia e com cabelos encaracolados. Não parece servir, mas sim dançar por entre as mesas. Com um olhar curioso e penetrante ela tenta olhar meus olhos por baixo do capuz que estou vestindo. Eu peço um hidromel e ela rapidamente anota e vai até a mesa ao lado. Mesmo o gosto dessa bebida será insípido frente às lembranças do Vinho Flor dos elfos… Observando rapidamente vejo uma linda humana jovem que me olha curiosa. Isso me incomoda um pouco, me deixando tenso.
Ouvi então comentários da mesa ao lado. Os anões perceberam que sou um elfo, e começaram a caçoar. A garçonete colocou o hidromel em minha mesa, e alguma coisa em outra mesa ao meu lado. De repente o que eu mais temia aconteceu. Um anão sujo, fedorento e asqueroso vem em minha direção e senta à minha frente. Com palavras que não lembro, ele faz escárnio de nossa raça e nossa civilização. Só me lembro de uma referencia à “fraqueza” do meu povo frente à grande dragoa verde… Não, ele não era um dos de Thorbardin, nossos aliados, era um anão de outras montanhas…
A tensão de ser observado pela jovem humana, a mágoa de minha amada Qualinost destruída e a raiva desse anão me fizeram explodir e sacar minha cimitarra, apontando para a cara do pequeno mineiro. Não sei o que houve comigo, mas era como se meus músculos não obedecessem minha mente. Era apenas uma fúria incontrolável, um desejo de que aquilo fosse um pesadelo ao qual eu nunca mais ia ouvir referencias… A jovem humana, bela, que me observara todo o tempo, veio em minha direção e disse para eu parar imediatamente com um tom de ameaça. Ela apontou para alguns humanos vestidos em roupas negras que observam tudo com suas faces notavelmente corrompidas pela ganância. Eu aponto minha arma a ela, e questiono: “Como eu sei se devo confiar?”, ela apenas me diz que devo confiar, e ao olhar a confusão que se instaurou no pequeno bar, resolvi segui-la. No outro lado do bar uma outra confusão se iniciava. Os homens de negro correram na direção de um motim. A garçonete de cabelos negros e encaracolados apontava sua espada com sangue para eles em tom de desafio. Logo percebi que não eram amigos da audaciosa e bela humana ao meu lado. Ela havia apenas utilizado perspicácia para evitar confusões, mas era tarde demais. Demorei para entender, mas ouvi os gritos: – SÃO SERVOS DO DRAGÃO! – PRENDAM-LHES!
O medo das pessoas era tanto que ao me verem com uma arma já me acusaram, assim como fizeram com a garçonete e todos os envolvidos. Sem me dar conta, estava com eles, eram seis e eu. Logo estávamos correndo para os fundos da hospedaria no alto da árvore. Em instantes já estava no solo novamente, acompanhado da jovem, da garçonete e das outras pessoas desconhecidas, estávamos fugindo de Solace.

Armantaro

Published in: on Fevereiro 5, 2010 at 2:38 pm  Deixe um Comentário