“Lâmina do Mar”

A ilha de Saifhum, localizada no nordeste de Ansalon, é um local montanhoso, habitado apenas em uma área baixa de sal, areia e mar que abriga todos os tipos de indivíduos. Em certa cidade, chamada Sail, as ruas são de palafitas construídas sobre a água salgada da praia, e são freqüentadas por assassinos frios, ladrões organizados em guildas secretas, piratas, mercadores, Kenders desavisados, meio-elfos cavando sua sobrevivência entre os párias e mesmo cavaleiros Solamnicos disfarçados que tentam ajudar aqueles que vivem em meio à tamanha gama de perigos. O local é ameaçador, e tinha se tornado ainda mais nos últimos tempos, pois minotauros a serviço de seu império marítimo haviam conquistado a cidade e governavam com braço de ferro os que ali viviam. O restante da ilha permanecia longe do domínio dos monstruosos “chifrudos”, mas havia muito medo por toda Saifhum desde que a notícia da chegada daquele grupo bélico havia se espalhado.
É nesse local peculiar, ainda anos antes da dominação dos minotauros, que nasceu um menino de cabelos castanhos arruivados chamado Raziel. Sua pele desde cedo foi curtida pelo sol, pois a pesca em alto mar é uma atividade necessária para quem ali vive. Suas últimas lembranças de seus pais são vagas e desde bem novo ele aprendeu a se virar sozinho em um mundo em que ninguém ajudava ninguém, exceto é claro, quando um favor podia ser pago de alguma forma. Obedecendo a essa pequena regra Raziel cresceu. Todo dia ele fazia um favor para alguém em troca de alguma comida ou às vezes algumas moedas de ferro. Era uma indigência justificada como ele mesmo chamava. Sua cama era concedida por donos de estalagem que exigiam das crianças serviços de garçom, limpeza e outros mais. Raziel não temia. Ele não tinha muito a perder. Sua única vontade era sobreviver, e isso ele aprendera a fazer com maestria.
Assim passaram-se os anos, de favor em favor, e logo ele estava envolvido com favores maiores em troca de quantias maiores… de dinheiro é claro. Alimento ele conseguia por si só, às vezes roubando, às vezes pescando, isso não o preocupava mais. Aliás, suas preocupações eram muito maiores do que isso desde que a cama de gato tinha se formado sob ele. Os serviços prestados às guildas e a outros figurões tornaram Raziel conhecido na ilha, e comprometido também. Não tinha como escapar. Era um modo de vida arriscado no qual ele, quase sem querer, estava totalmente imerso.
O que ocorreu foi que as habilidades de Raziel ficaram grandes e ele passou a ser importante para um grupo de piratas de Saifhum que atuavam com base em Sail. Havia ali essa grande guilda de ladrões dos mares. Eles se autodenominavam “lâminas do mar”, e seus trabalhos nada amigáveis eram conhecidos em muitos portos do leste de Ansalon. Os “lâminas”, como também eram chamados por ali, eram bastante empenhados em mostrar quem mandava na cidadela. Porém, nos últimos tempos, com a chegada dos minotauros conquistadores, a guilda tinha perdido poder. Ainda sim, era ela que garantia à Raziel um mínimo de prestígio e orgulho. Ele era respeitado por aqueles que sabiam para quem ele fazia favores, e a confraria era a única oportunidade que Raziel tinha para sair daquele lugar maldito. Se ele fosse considerado bom poderia ganhar um posto na tripulação do navio “Onda Mortal”. Era isso que ele queria, e ele buscaria isso até o fim. Então ele resolveu realizar uma audaciosa proeza, para conseguir seu objetivo. Ele mataria o general minotauro das forças invasoras de Mithas que estava agora dominando as rotas de contrabando e saques marítimos dos “lâminas”.
Raziel se preparou por um bom tempo, cerca de um outono inteiro. Finalmente então ele começou a dar cabo em seu plano. A operação se iniciaria prestando favores secretamente para os minotauros contra “sua” antiga guilda. O general Irgnosk ficaria muito satisfeito com a possibilidade de enfraquecer indiretamente os ladrões dos mares que continuavam a se esconder e saquear barcos antes que chegassem nos portos. Tudo tinha sido planejado, é claro, juntamente com os “lâminas do mar”, e os favores prestados à Irgnosk não passavam de farsas. Mas a dissimulação de Raziel garantia que tudo desse certo.
Em pouco mais de oitenta dias Raziel já podia caminhar entre alguns minotauros sem ter medo. Ele era protegido de Irgnosk, e continuaria a se aproximar até o momento certo. Ele dava pistas falsas sobre o paradeiro dos piratas humanos, e foi secretamente guiando os minotauros para uma emboscada. Ele já podia se ver saindo daquela ilha, aclamado entre os piratas. Em suas investigações Raziel descobriu que os minotauros de Mithas, essa outra ilha do Mar de Sangue lar dos monstros chifrudos, planejavam e davam cabo de um ataque aos elfos de Silvanesti, e estavam ficando sem recursos. Era por isso que eles estavam em Saifhum. Para recrutar e obter recursos para suas empreitadas militares. Raziel acreditou, a partir desse momento, que poderia ser inclusive decisivo na expansão ou freio dos minotauros em Ansalon. Parecia um grande negócio. Podia até ter seu nome escrito na história.
Irgnosk nem imaginava, a essa altura, os planos do humano que ele via apenas como “muito ambicioso”. Na verdade ele estava se divertindo com a situação de poder que o levara a ter diversos “puxas saco”. O minotauro seguiu as orientações de Raziel quando este disse que o “Onda Mortal” estaria em um porto natural próximo, desprotegido. Raziel dera detalhes do barco, e já tinha dado muitas razões para que o general minotauro confiasse nele. Na verdade, a inteligência de Irgnosk era inversamente proporcional à força de seus imensos músculos. Sua fúria e vontade de ver sangue eram incontroláveis. Praticamente qualquer argumento o levaria para qualquer batalha. Todo possível derramamento de sangue inimigo era bem vindo sem muita reflexão. Para exterminar, porém, os “lâminas”, o imenso general chifrudo tinha uma motivação a mais. Eles eram responsáveis por inúmeros saques a navios de minotauros e outros navios mercantes que se arriscavam a passar perto de Mithas e a negociar com o Império que se instalava. Os minotauros já haviam deixado de ganhar muito ouro e de ver muito sangue graças à ação do veloz “Onda Mortal”. Isso haveria de terminar…
Raziel espionou toda a elaboração do ataque proposta pelo general monstro e avisou seus comparsas. Os “lâminas” estariam lá, mas prontos para o ataque. Eles contrataram duas centenas de mercenários das cidades de Beiramar e Extensão Marinha para ajudar. Os cálculos para a vitória dos piratas estavam todos feitos. Alguns já cantavam vitória em suas mentes quando despontaram no horizonte inúmeras tochas do ataque iminente.

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Irgnosk estava maravilhado. O “Onda Mortal” estava lá, no porto natural, aparentemente desprevenido. Ele já podia ouvir os gritos. Convocou seus batedores e os mandou na frente. Um barco dos minotauros abordaria pelo mar. “Os piratas humanos estavam perdidos”. Em poucas horas a abordagem tinha começado, mas para a surpresa de Irgnosk ninguém estava lá. Os piratas saberiam do ataque? Como? O general corpulento chamou suas tropas e resolveu verificar dentro do navio do inimigo. A essa altura pensamentos sobre traição de Raziel passavam pela sua cabeça. Mas ele não tinha certeza. Algo deveria estar errado, mas o que era ele não sabia. Então mandou um grupo de escolta para dentro do suposto “Onda Mortal”. Os guerreiros minotauros que estavam do lado de fora do navio, aguardando, só ouviram o barulho de uma explosão e viram os pedaços do navio indo pelos ares em um espetáculo de labaredas que apagavam ao cair no mar. Alguns gatunos piratas estavam localizados escondidos entre as pedras que guiavam todo o caminho para o porto natural onde estava o navio falso. Eles atacaram os destacamentos dos minotauros fazendo-os se dispersar com flechadas e virotes. A batalha começou de forma imprevisível para Irgnosk. Diversos frascos de fogo grego foram jogados entre os minotauros logo após a explosão surpreendente. Tudo saíra do controle. Os minotauros que agora se viam pegos sem aviso. Muitos começaram a cair mortos vítimas da cilada. Os humanos tinham tudo a seu favor. O general chifrudo olhou para seu navio de apoio e viu ele ser abordado pelos humanos que chegavam no verdadeiro “Onda Mortal”, rápido como o vento. Coisa possível graças à engenhosidade dos engenheiros gnomos que o haviam projetado.
Todas as estratégias só puderam ser traçadas graças ao oportunista e traiçoeiro Raziel. Tudo estava indo bem para eles, e o “traidor” dos minotauros, que via tudo de longe, do alto de uma montanha, se deliciava com o sabor da vitória. Ele nunca tinha tido amor pelos minotauros. Era mil vezes melhor ser dominado por piratas humanos que por aqueles malditos monstros, sobretudo quando se está do lado dos piratas humanos. Irgnosk corria freneticamente, até ser atingido por um virote de Raziel bem na perna, e cair desajeitado. Ele olhou com ódio para a direção de onde tinha vindo o tiro, sem ver quem atirara. Raziel então atirou mais uma seqüencia de virotes. Irgnosk estava morto. A batalha estava ganha. Os restantes que foram mortos ali seriam esquecidos por um tempo. A má administração daquele porto de Saifhum pelo Império central dos minotauros permitia que essa ação fosse tomada e por um tempo nenhuma retaliação consistente fosse feita. Os minotauros tinham mais com o que se preocupar com sua expansão no sul.
Mas logo mais minotauros viriam para Sail, mas por pelo menos um mês, os “lâminas” teriam seu monopólio, e logo sairiam para buscar novos mares e novos portos. Raziel foi aceito então na tripulação do “Onda Mortal”, e embarcou com os piratas em uma empreitada para roubar antigos artefatos mágicos na arruinada cidade de Xak Khalan na Abanassínia.
A viagem foi tumultuada, mas o navio sobreviveu às tempestades e às longas distâncias percorridas para chegar ao outro lado de Ansalon. Pouco tempo depois da saída os piratas já sabiam que a velha e amaldiçoada Sail estava novamente sob o domínio dos minotauros, e com certeza agora eles estavam reforçados. Os “lâminas do mar” tinham feito um império como inimigo. Isso pouco importava agora. Todos estavam satisfeitos por terem matado Irgnosk e ter lucrado com um mês de monopólio total sobre algumas rotas das Ilhas do Mar de Sangue que ficavam sob o cuidado dos minotauros.
O que importava era o saque à ruína. A operação se iniciou com sucesso, mas o grupo foi surpreendido por um enorme número de draconianos que acabaram por matar a todos. Raziel ainda conseguiu fugir, apenas para ser capturado por um contingente de goblins que estava à espreita nas planícies da Abanassínia. De lá ele foi vendado e foi levado por longo caminho até o que ele identificou – pela umidade e temperatura principalmente – como uma caverna ou algo parecido. Foi então que ele ouviu gritos e grunhidos de uma batalha. Os goblins que o carregavam estavam sob ataque. Raziel estava vendado e amarrado, e só pode esperar pelo pior sem saber o que acontecia. Mas o pior não veio. A princípio Raziel se sentiu aliviado, mas em seguida sentiu as náuseas e o medo de ter que morrer de fome e sede em um local desconhecido. Ele então ouviu uma voz em sua mente, e suas mãos foram desamarradas bruscamente. Ele tirou as vendas dos olhos e se viu em um estranho subterrâneo levemente iluminado por alguma fenda no alto. Com um pouco mais de atenção pode notar o som de um curso d’água ali próximo. Os corpos dos goblins não estavam ali. Ele estava só, mas tinha uma chance agora de sobreviver. Qualquer chance seria para ele muito bem vinda…
Sua história como “lâmina do mar” terminava assim, sem nem bem ter começado, mas isso não significava que ele não teria sua fama e seus tesouros. Muito estava por vir… Ele encontraria um grupo de aventureiros; e sua sorte seria mudada.

Published in: on Maio 4, 2010 at 12:51 am  Comments (5)